No tempo da beleza em lá menor

A maior parte dos meus vinte e poucos anos eu passei acreditando que, se todos viemos ao mundo com uma missão a cumprir, a minha era “salpicar o Universo de beleza”. O jargão dava o tom daquela época, e se traduzia na forma como tentava conduzir minhas relações,  no peito aberto para os encontros da vida, na dedicação ao meu trabalho com jornalismo comunitário e educomunicação.

Disse diversas vezes aos meus companheiros de sonhos, nas noites regadas a pinga e utopia, que tudo perderia o sentido, e eu me perderia de mim, se algum dia me fechasse em conquistas individuais apenas (que talento para profecias…).

Trocando em miúdos, sempre quis lutar por algo maior, mudar o mundo, essas coisas da juventude, mas acho que falar em “salpicar o Universo de beleza” era uma maneira de conferir leveza a um sonho tão grande, pra não me sentir oprimida por ele.  Da minha condição de poeirinha cósmica, fizesse o que fosse, mesmo na potência máxima, se trataria sempre de humilde cosquinha no Cosmo.

Hoje lembrei daquela singela ambição e entendi como foi importante cultivá-la nos tempos juvenis de tantas incertezas e construções. Apesar das tantas voltas da vida, da poeira nos pés, dos calos nas mãos e de um inevitável peso no coração, acordei nesta manhã de notícias ruins e pensei que estes são tempos, mais do que nunca, de incertezas e, por isso mesmo, de construções.

Que a beleza então resista, mesmo que num surto de juventude fora de época,  e ainda que seguindo o tom destes nossos dias em lá menor.

 

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