Um homem

Fui dormir com aquela troca de mensagem, aquele jeito dele de dizer milhares de coisas em frases curtas, com o poder de síntese que sempre admirei. Só que desta vez os assuntos não se relacionavam:

tô ficando saudável
neste momento comendo uma salada de repolho branco
repolho roxo
tomatinho e cebola pequenininha
em vez de baconzitos
ah, uns champignonzinhos tb
mas fique tranquila
acompanha uísque
sou fã da Durga
descobri um salgadinho chamado magia
muito bom
mas eu tava ficando muito barrigudo
amanhã tenho uma reunião
trabalho super legal
importantíssimo

Olhei praquelas frases e achei engraçado. Isso de desandar a escrever, meio que não dando tempo pro interlocutor respirar, costumava ser coisa minha. Bem verdade que sempre com textão. Eu não sei descompensar assim, com frases curtas…

Falei que não tava acompanhando o raciocínio, perguntei se ele tinha mesmo bebido uísque para acompanhar a salada.

sóbrio
total
hehe
foi mal
sorry
não falo com vc há um tempo
joguei tudo de uma vez

Explicado. Força do hábito, apenas. Um tempo sem contato e quando uma janela de whatsapp se abriu, lá veio o turbilhão. Um monte de small talk represado. É que ele costumava me contar essas coisas cotidianas. Sobretudo essas coisas cotidianas. Eu diria que o principal motivo da gente ter se afastado foi essa capacidade dele de emplacar tantos assuntos cotidianos em sequencia — de lembrar de mim comendo salada, comendo biscoito Magia, tomando uísque, vendo um documentário sobre cachorros, lendo uma tese, na reunião de trabalho —  mas sempre, invariavelmente, mentir sobre coisas fundamentais.

 

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28 dias de café – parte 5: “Sobre saudades oceânicas e rotas desiguais”

Sempre achei que devia existir uma razão sublime para que eu tivesse desde muito cedo me separado de pessoas fundamentais na minha vida. Começou com os amigos da escola, considerando que dos 10 aos 16 anos estudei em seis colégios diferentes, sendo que em apenas um permaneci por dois anos consecutivos. Os motivos para as minhas mudanças foram diversos – como dificuldades financeiras, vontade de acompanhar os colegas da vizinhança ou a decisão de ter uma formação técnica – mas jamais estiveram relacionados à um mau rendimento, muito pelo contrário, nem à mudança de residência.

No início da vida universitária, o tempo de permanência até diminuiu: cursei um semestre de geografia na Uerj, abandonei porque preferi fazer jornalismo na Uff, onde estudei um semestre antes de trancar a matrícula e viajar para Israel.

Depois, apesar da minha felicidade por regressar ao Brasil, meses se passaram até que eu me recuperasse do efeito da experiência do Kibbutz, das andanças em Israel e no Egito. Durante muito tempo foi difícil coincidir o lugar do meu corpo, “preso” no início de vida universitária e no longo caminho que ela representava, e o da minha cabeça, que se concentrava na saudade que sentia de pessoas agora espalhadas pelo mundo e na necessidade de novos vôos. Naquela época pré-skype, as contas de telefone com chamadas para Inglaterra não raro geravam aborrecimentos para o meu pai.

Depois disso, afastamentos ainda mais difíceis aconteceram. Em 2003, minha irmã resolveu constituir família na Holanda, contrariando assim o antigo plano de sermos vizinhas quando casadas. Pelo menos ela manteve parte do acordo, que previa também um quarto de hóspedes na casa de cada uma, e esse fato me garantiu um pouso na cidade que viria a se tornar o meu centro mágico no mundo: Amsterdam.

Suportei com dificuldade também a partida da minha melhor amiga para Londres, em março de 2006, e a dor de me ver separada da Déia, com quem compartilhei praticamente todos os meus momentos felizes dos anos anteriores, definitivamente resultou em algo positivo: em agosto daquele mesmo 2006, parti rumo à Europa para o que deveria ser uma viagem de 50 dias e acabou se transformando em um período de três meses…

(e continua…)