Sobre o Mistério da Santíssima Alteridade

Uma coisa me incomoda em relatos de viagem: a facilidade que muitos demonstram ao descrever lugares, culturas, comportamentos ou mesmo paisagens e comidas estrangeiras. Talvez, no fundo, uma inveja inconfessável defina essa estranheza porque desde a minha primeira vivência fora do Brasil, aos 18 anos, até hoje, aos 34, nunca me abandonou o sentimento de espanto na relação com o Outro. Impressionante como eu, teoricamente íntima das palavras, me vejo outra vez criança, que pasma e silencia diante do que posso chamar de Mistério da Santíssima Alteridade.

Sempre convivi com o desconforto em meio às tentativas de experimentar e descrever algo muito diferente, embora me esforce para que isso pareça natural. Lembro de uma ligação de Skype para a Juliette, ela em Munique e eu aos prantos em Maputo, por achar que tinha quase uma obrigação de escrever e compartilhar minhas experiências (isso no meu oitavo mês de andança pelo mundo, na viagem mais longa que fiz até o momento). No entanto, receava aprisionar o Outro nos meus clichês, ainda que com o salvo-conduto do olhar estrangeiro, e me sentia absolutamente incapaz de disseminar impressões superficiais, apesar da minha licença poética de viajante-desbravadora-corajosa — e provavelmente por não conseguir me ver como essa personagem descolada. A Juliette, a pessoa mais nômade que conheço na vida, que já morou em quase dez países, nunca no seu próprio, justamente ela me entendeu perfeitamente.

Hoje, ainda incapaz de me lançar inadvertidamente no terreno das afirmações e certezas absolutas, me apaziguei em relação às minhas dúvidas e me consolo por saber que neste mundo de informação, de discursos inflamados e de crianças que nascem sabendo, existe ainda muito espaço para questionamentos — felizmente, porque os meus, com o passar dos anos, mais se amontoam do que se esclarecem e é preciso encontrar um lugar para eles. Talvez só agora esteja descobrindo que a grande sacada seja precisamente fazer perguntas — e, claro, o que sempre soube: ouvir pessoas. Porque não pode existir aventura maior que tentar desvendar o Outro (ainda que esse movimento resulte numa descompreensão ainda mais profunda) e, nesse processo, vislumbrar o Mistério que nos constitui.

 

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Pessoa na alma, Pessoa na mala

“Última estrela a desaparecer antes do dia,
Pouso no teu trémulo azular branco os meus olhos calmos,
E vejo-te independentemente de mim,
Alegre pela vitória que tenho em poder ver-te
Sem ‘estado de alma’ nenhum, salvo ver-te.
A tua beleza para mim está em existires.
A tua grandeza está em existires inteiramente fora de mim”

Alberto Caeiro

Preparando as malas para mais uma viagem. Na bagagem, poucos livros, porque a vida de caminhante exige desapegos. Que bom que a poesia de Fernando Pessoa me faz companhia…

Sobre o cotidiano, viagens e o contemporâneo – ou divagações provocadas por um filme do Woody Allen

Acabei de assistir Midnight in Paris. Ah, eu andava com uma saudade de cinema… Aliás, o filme fala de uma saudade bem específica: saudade do não vivido. Aquela nostalgia de quem acredita que a felicidade existiu um dia, em algum tempo e lugar distantes, mas já não mora mais aqui, no agora.

Engraçado… as várias horas do meu dia que antecederam a última sessão, das 21h30, passei caminhando por Amsterdam. Nessas caminhadas descubro, ou melhor, reafirmo, o quanto o cotidiano, esse jeito prosaico de viver o presente e as urgências do agora, me encanta. Nessas horas, desejo ter por perto os queridos distantes – embora tenha aprendido que essa vontade de querer que vejam com os meus olhos está em cada esquina do mundo, vai existir sempre, e há mais beleza que tristeza nisso. É prova de que, onde quer que eu vá, carrego em mim muitas pessoas, elas me contém e estou contida nelas. Sentindo falta, encontro presenças…

No encantamento pelo cotidiano talvez esteja a origem da minha paixão por viagens e isso não é nem um pouco contraditório. Acho que meu maior objetivo quando vou para países e cidades diferentes é ver gentes e coisas comuns com as quais eu jamais me esbarraria se não me pusesse em movimento.

Gosto de viagens porque quando sou estrangeira estou em um permanente estado de alerta, sempre conectada, prestando atenção em tudo, nunca “no automático”. É quando o corpo assume a liderança no lugar da cabeça, que fica perdida sem as referências habituais e se vê impelida a abrir espaço pros sentidos, que voltam a trabalhar feito na infância, explorando e estranhando tudo sem saber de nada. É quando não há tanto espaço para especulações e teorias aleatorias sobre a vida que, afinal, está aí, aqui, urgente e pulsante. Nessas horas, toma conta o silêncio e me vejo num estado de pasmar e respeito pelo mistério que o Outro representa.

Mas em Amsterdam há uma magia que vem do fato de me sentir tão em casa em um lugar onde cada detalhe reafirma meu estrangeirismo: a arquitetura, a cultura, a língua, as terras mais baixas que o oceano que sempre me cercou, tão diferentes do mar de morros do sudeste de onde venho. As gentes, as feições nórdicas contrastando com a minha cara de vira-latina, a temperatura, o jeito do sol aparecer, a cor do céu. Tudo é tão diferente das minhas referências ancestrais e, ainda assim, quando cá estou, sinto-me parte do cotidiano dessas ruas e canais repletos de flores, bicicletas, barcos e prédios tortos dos séculos 15, 16, 17, 18…

Mesmo me sentindo em casa, não me acostumo.  Todas as vezes que estou caminhando pelas ruas de Amsterdam, sobretudo à noite, penso que ela é linda e que eu vou sempre ser apaixonada por esta cidade.

Agora, depois de dois meses, me despeço. Não é com tristeza que digo isso pois, tendo passado (e ficado) por aqui algumas vezes, em estações e momentos tão diferentes da vida, aprendi que sempre é tempo de amá-la. Em poucos dias, viajo para Joanesburgo e de lá, para Maputo. É hora de desvendar outros lugares, outras pessoas, outros cotidianos, um outro presente. De me encantar, porque não há limites para o encantamento, que sempre está aí quando a gente olha com cuidado. Ou não. Porque, como diria o velho Guimarães Rosa, “felicidade se encontra é em horinhas de descuido”.

***

Em tempo, segue uma lista de coisas que amo fazer em Amsterdam. Se vocês passarem pela minha cidade querida e tiverem a oportunidade de visitar um destes lugares, por favor, compartilhem comigo me enviando uma breve prece em forma de sorriso.  Sei que vou sentir, esteja eu onde estiver.

1 – assistir a um show de jazz no Café Alto;

2 – esquecer das horas na Oba, a biblioteca mais incrível que já vi;

3 – ir ao The Movies, um cinema antigo e super charmoso de Amsterdam e afundar nas charmosas poltronas do café enquanto espero a sessão;

4 – tomar cervejas locais e 100% orgânicas na Ij Brewery , que fica dentro de um moinho, de frente para um canal;

5 – assistir a um show de rock no Bourbon Street;

6 – degustar cervejas belgas artesanais no De Zotte, que a Dorien (a amiga holandesa que foi minha vizinha em Santa Teresa, com quem vou me encontrar em Maputo) me apresentou recentemente;

7 – no verão, sentar nas mesas que ficam do lado de fora do Gasthuys, aproveitar o solzinho de frente pro canal e espiar o movimento dos estudantes da Universidade de Amsterdam enquanto tomo um café. No inverno, sentar lá dentro (é um típico brown cafe, adoro, é super charmoso e despretensioso) e tomar uma sopa.

Ele (5)

Amo os detalhes, mas nem sempre gosto de suas qualidades mais óbvias. Elas, por vezes, até me aborrecem. Por exemplo, nem sempre gosto do espírito aventureiro e desbravador que todos admiram. 

Sim, é muito bom ver seus olhos brilhando ao falar dos planos de uma viagem de carro pela América Latina, ou do sonho de dar a volta ao mundo em um veleiro.  Às vezes, depois de ouvir suas histórias, leve, me deito de lado, de costas pra ele, e pego no sono. É tempo de um cochilo apenas, pois logo sou despertada por suas mãos no meu quadril. Elas passeiam ali por um bom tempo, pacientes, quase tímidas, mas muito perseverantes… Até que, finalmente desperta, me viro para pedir que aquelas mãos me peguem de uma vez.

Mas então descubro que somente as mãos permanecem ao meu lado. A cabeça dele está em outro lugar, viajando, e são os olhos que denunciam, pois estão absortos, fixados na parede, mirando uma carta náutica.

Ao urubu que pousou em minha janela

Há três dias um urubu pousou no parapeito da minha janela do trabalho. A janela estava fechada, eu não corria o risco de me ver, de repente, dividindo a sala com ele. Ainda assim, foi assustador observá-lo do outro lado do vidro, sobretudo no momento em que ele, brincando com a própria imagem refletida (e assim demonstrando que o universal mito de Narciso é extensivo ao mundo animal), abriu as asas e olhou fixamente para os próprios olhos, sem saber que eles encontravam os meus do outro lado. Ou talvez soubesse.Fiquei me perguntando se aquilo era um sinal. Concreta e racionalmente, não era. Mas insisti em acreditar que sim, que havia ali uma mensagem a ser interpretada. Inicialmente, só consegui pensar em uma única possibilidade: mau agouro. Não me condeno por essa visão negativa pois, se de fato somos o que comemos, eu tinha diante de mim um amontoado de carniça que veio voando se instalar ao lado da minha mesa de trabalho.

Como o bicho não dava sinais de que sairia dali tão cedo, confortável que estava no meu parapeito, e eu não podia simplesmente abandonar o posto, tentei pensar em algo que me acalmasse. Talvez o visitante estivesse em missão de paz, apesar de enlutado. De repente, entendi claramente o objetivo principal de sua presença: me fazer entender que tudo que devora coisas mortas, podres e carcomidas contribui de uma maneira muito contundente para a beleza da vida.

A constatação me fez sorrir. O urubu, que nada deixava escapar, resolveu me testar abrindo novamente suas enormes asas negras. Desta vez, não me apavorei. Entendi o gesto como um generoso convite para voar em suas asas. No entanto, para tornar a viagem possível, eu deveria abandonar meu excesso de peso e ele, se tornar mais forte. Assim, fizemos um pacto: eu lançaria ao meu amigo faminto o que de morto e podre houvesse em mim para que ele, gentilmente, a tudo devorasse.

O urubu então se empanturrou com um cardápio variado:  carnicentas mágoas, mal-cheirosos medos, putrefatas dores, podres preconceitos, estragados egoísmos e tantos ressentimentos em decomposição. Quanto mais eu alimentava o urubu, mais forte ele ficava e eu, mais leve. Assim, voávamos mais alto. Por fim, quando não restava em mim o que servisse de alimento para meu amigo, com receio de que perdêssemos altitude, comecei a desejar que outras mortes sustentassem nosso voo.

Então, desejei a morte de tudo que mata o sonho, entristece a existência, envenena a liberdade do espírito e impede o voo do pensamento. Roguei pela morte de tudo que impede a paz, o conhecimento, a arte, a beleza, a esperança, a fé na vida. Morte de tudo que destrói o afeto, morte da falta de cuidado e de respeito às diferenças, do que nos afasta da percepção da face divina do Outro. Desejei também a morte de tudo que nos desvia de nossa plenitude, do que nos faz embrenhar pelos descaminhos do conformismo e da mesmice. Morte!, gritei, aos sistemas injustos que matam pela falta de pão, de beleza e de oportunidade; que castigam a natureza e ofendem a dignidade humana.

Até que me dei conta de que não tivera tempo para despedidas e luto, nem me preparara para o mistério que agora se anunciava. O que havia restado de mim e do mundo que eu conheci um dia se, desde sempre, um e outro éramos feitos também daquilo que foi devorado pelo urubu? De repente, o desconhecido me pareceu infinitamente mais insuportável que a podridão, pois, de certa forma, havia me acostumado a ela.

E então, o sábio urubu, com jeito de profeta, me aconselhou: “filha, viva o novo e deixe que das coisas mortas cuidem os urubus”.

28 dias de café – parte 10: “Quando a gente vive é mais fácil teorizar”

Naqueles meses de primavera e verão que passei no Kibutz, com freqüência eu deixava de sair na sexta-feira à noite para acordar cedo no sábado, pegar minha bicicleta, ir à praia e voltar somente no fim da tarde. Lembrando agora, o aspecto mais interessante desse hábito é que ele causava estranheza nos que recebiam notícias minhas no Brasil. A idéia de muitos era que  Israel não passava de um grande deserto. De um modo geral, as pessoas não tinham em mente, por exemplo, a imagem da praia de Tel Aviv, cujo calçadão foi inspirado no de Copacabana.

Essa constatação, essa visão restrita dava uma dimensão do efeito da cobertura jornalística. A avidez por notícias de guerras e atentados, a massificação de imagens fechadas nas tragédias fazia evaporar outras referências muito mais antigas. Assim, pessoas sempre tão “informadas” sobre Israel permaneciam ignorantes em relação a aspectos básicos da geografia desse país minúsculo espremido entre o Mar Mediterrâneo e o Mar Vermelho que, numa das passagens bíblicas mais conhecidas do mundo cristão, o Deus do antigo testamento abriu para o povo hebreu passar.

28 dias de café – parte 8: “Tempos do kibutz e mudanças pra vida inteira”

O Kibutz Ein Hahoresh foi fundado no início da década de 1930 por um grupo de judeus da Europa oriental, poloneses em sua maioria. Não saberia precisar exatamente quantas pessoas moravam lá em 2000, mas diria que o número de membros – os kibutznikim – passava dos mil. Lá havia acomodação para 30 voluntários, que eram alojados em diversas casinhas de madeira pra lá de modestas, de três quartos simples ou um duplo. Como acontecia em outros kibutzim, essas casas ficavam numa área reservada, onde ficavam também os nossos espaços comuns: o refeitório-cozinha dos voluntários, uma precária sala de jogos (com uma velha mesa de ping pong) e uma sala de TV (inacreditavelmente, nunca houve brigas por causa dos canais).

Rotineiramente, os voluntários se encontravam já no café da manhã, quando todos, com exceção dos que cumpriam escala na fábrica (porque esses faziam a primeira refeição no local de trabalho), se sentavam juntos nas duas grandes mesas destinadas aos voluntários no salão de jantar central do kibutz. No almoço, a mesma coisa, o mesmo encontro, as mesmas pessoas. No jantar, o espaço de convivência passava a ser o nosso refeitório na área dos voluntários.

Os horários de chegada e saída do trabalho variavam um pouco. Alguns faziam horas extra (para cada seis horas acumuladas, ganhávamos um dia de folga), mas via de regra, às 15 horas, nas tardes de verão, nos encontrávamos também na piscina do kibutz. Dependendo do dia da semana, ou por causa de alguma celebração, jantávamos todos no salão central. De tempos em tempos, a exibição de algum filme no cinema de Ein Hahoresh se transformava em mais um motivo de encontro e integração também com os kibutznikim. Às quartas-feiras, um ônibus gratuito levava os voluntários para a Vertigo, uma disco em Haifa, cidade ao norte de Israel, distante 40 quilômetros. Nas noites de quintas, íamos para o pub de Givat Haim, o kibutz vizinho, produtor de laranjas e sucos – e, por isso, alvo de eventuais saques de voluntários de Ein Hahoresh no caminho bêbado de volta pra casa. Sarah, há anos responsável por liderar o grupo dos jovens do mundo inteiro que decidiam viver a experiência comunitária, não raras vezes nos dava broncas homéricas por encontrar vestígios indiscretos do delito, como cascas de laranja espalhadas por todo o nosso refeitório e mesmo em outros cantos da área dos voluntários.

28 dias de café – parte 7: “O que não está aqui, não estará lá”

Escrevi algumas crônicas sobre a viagem de 2006, algumas publicadas no blog antigo, mas o meu estado de espírito, minhas fraquezas e esperanças, agonias e exaltações, essas eu somente revelava ao meu caderno de capa de couro decorada e miolo em papel pólen (presente do Natal anterior que minha irmã trouxera de Florença). 

Numa tarde de dezembro, já em 2008, em Londres, num desses dias em que passei de cama por causa de uma reviravolta no estômago, com o mesmo caderninho nas mãos, resolvi reler meus textos de dois anos antes. Então, comparei os momentos, me dei conta de algumas das minhas transformações e me senti profundamente infeliz.

Se eu pudesse eleger um sentimento predominante em cada uma das viagens, eu diria que a de 2000, ao Oriente Médio, envolvia surpresas e receios. Em 2006, eu era puro brilho nos olhos, peito aberto e, não por acaso, estive propensa a muitos encontros. Em 2008, a melancolia que me tomava me seguiu até a Europa. Era a comprovação de que o sentimento não se referia a um lugar, ao Rio de Janeiro de sempre, onde fazia tempo eu já não enxergava novidades e pulsações.

Estava eu em Londres com o mesmo ar perdido e desinteressado. A sensação me assustou, e me fiz acreditar que era apenas um indício de que precisa buscar algumas respostas. O meu privilegiado olhar, estrangeiro e mágico, que me proporcionara os melhores momentos que minha lembrança podia alcançar, esse olhar salpicado de beleza e estrelas eu perdera. E entendi, naquele momento, que reencontrá-lo era a única coisa que importava.

28 dias de café – parte 5: “Sobre saudades oceânicas e rotas desiguais”

Sempre achei que devia existir uma razão sublime para que eu tivesse desde muito cedo me separado de pessoas fundamentais na minha vida. Começou com os amigos da escola, considerando que dos 10 aos 16 anos estudei em seis colégios diferentes, sendo que em apenas um permaneci por dois anos consecutivos. Os motivos para as minhas mudanças foram diversos – como dificuldades financeiras, vontade de acompanhar os colegas da vizinhança ou a decisão de ter uma formação técnica – mas jamais estiveram relacionados à um mau rendimento, muito pelo contrário, nem à mudança de residência.

No início da vida universitária, o tempo de permanência até diminuiu: cursei um semestre de geografia na Uerj, abandonei porque preferi fazer jornalismo na Uff, onde estudei um semestre antes de trancar a matrícula e viajar para Israel.

Depois, apesar da minha felicidade por regressar ao Brasil, meses se passaram até que eu me recuperasse do efeito da experiência do Kibbutz, das andanças em Israel e no Egito. Durante muito tempo foi difícil coincidir o lugar do meu corpo, “preso” no início de vida universitária e no longo caminho que ela representava, e o da minha cabeça, que se concentrava na saudade que sentia de pessoas agora espalhadas pelo mundo e na necessidade de novos vôos. Naquela época pré-skype, as contas de telefone com chamadas para Inglaterra não raro geravam aborrecimentos para o meu pai.

Depois disso, afastamentos ainda mais difíceis aconteceram. Em 2003, minha irmã resolveu constituir família na Holanda, contrariando assim o antigo plano de sermos vizinhas quando casadas. Pelo menos ela manteve parte do acordo, que previa também um quarto de hóspedes na casa de cada uma, e esse fato me garantiu um pouso na cidade que viria a se tornar o meu centro mágico no mundo: Amsterdam.

Suportei com dificuldade também a partida da minha melhor amiga para Londres, em março de 2006, e a dor de me ver separada da Déia, com quem compartilhei praticamente todos os meus momentos felizes dos anos anteriores, definitivamente resultou em algo positivo: em agosto daquele mesmo 2006, parti rumo à Europa para o que deveria ser uma viagem de 50 dias e acabou se transformando em um período de três meses…

(e continua…)