Diálogos

−  Preciso me preservar. Me sinto cansada e cada vez mais descompreendo certas relações utilitaristas. Tive uma epifania, talvez tardia: eu, que já me fiz de guerreira, de santa e de pervertida, entendi, como a mais frágil das fêmeas, que a única forma de existência viável está em não desistir do amor. Viver intensamente, por discursos revolucionários ou experiências libertárias, por si, não basta.

− Também tenho razões para um certo cansaço e ando recusando essas tais relações. Sinto hoje essa necessidade de ser afetado pelo amor. Já me permiti viver, durante muito tempo, relações em que, no fim, tudo o que importava era a sedução. Mas não é possível firmar a existência em bases tão frágeis.

− Me lembra Don Juan…

− Isso. O Camus fala sobre o donjuanismo, sobre esse homem absurdo, esse sedutor vulgar que não acredita no sentido profundo das coisas, que se esvai à medida em que, aos poucos, esgota suas possibilidades e experiências. Percebi que já fiz esse jogo e que, se continuasse, morreria.

− Eu já acho que os sedutores não podem contrariar a própria natureza. A maioria das pessoas quer, em algum momento, e sob certo aspecto, se sentir seduzida. É importante que alguém desempenhe esse papel. Um sedutor que nega a sua natureza, aí sim, provoca incômodo. Conheci uma mulher lindíssima, daquelas que todos notam ao chegar. Quando distraída, e ela era muito distraída, toda a sua beleza era manifesta. Ser sedutora era seu estado natural. Mas bastava que ela se apercebesse de um olhar maravilhado, e era natural as pessoas se maravilharem diante dela, e imediatamente a linguagem de seu corpo, antes mágica e teatral, se retraía: ela encolhia os ombros, baixava a cabeça, media os gestos ou, ainda pior, se infantilizava. Dizia besteiras e, nas conversas, reforçava incapacidades e limitações. Tornava-se, então, uma caricatura. Pude observar essa transformação algumas vezes nos poucos anos que convivemos. Jamais presenciei olhares de reprovação quando ela foi simplesmente o que era: deslumbrante e sedutora. Nunca captei um sentimento de inveja sequer. No entanto, inúmeras vezes testemunhei o desapontamento de muitos que, tendo buscado-a movidos por um desejo de tocar o extraordinário, acabavam se esbarrando nesses ímpetos de inferioridade forçada, nessa necessidade absurda que ela sentia de ser como os demais. Ninguém suportava por muito tempo conviver com essa transformação da mulher sedutora em caricatura. Uma vez seu namorado, confirmando minhas impressões, confessou: “ela não percebe o quão irritante é para todo mundo ver uma Ferrari andando no acostamento a 20 quilômetros por hora”…

− Encontrei o livro do Camus. Vou ler alguns trechos:

“Don Juan domina […] a saciedade. Se deixa uma mulher, não é em absoluto porque já não a deseja. Uma mulher bela é sempre desejável. É, sim, porque deseja outra, e, de fato, não se trata da mesma coisa[…]

“Ele é um sedutor vulgar. Com uma pequena diferença, a de ser consciente. Por isso é que ele é absurdo. Um sedutor tornado lúcido não mudará por esse fato. Seduzir é o seu estado. Só nos romances é que se muda de estado e as pessoas se tornam melhores. […] Não acreditar no sentido profundo das coisas é próprio do homem absurdo […] O tempo avança com ele. O homem absurdo é aquele que não se separa do tempo. Don Juan não pensa em “colecionar” mulheres. Esgota-lhes o número e com elas esgota as suas possibilidades de vida. Colecionar é ser capaz de viver do seu passado. Mas ele recusa a saudade, essa outra forma de esperança. Não sabe olhar os retratos.

“[…]Será por isso egoísta? À sua maneira, sem dúvida. Mas ainda nesse ponto temos de nos entender. Há aqueles que são feitos para viver e aqueles que são feitos para amar. […] Todos os especialistas da paixão no-lo dizem, não há amor eterno, a não ser contrariado. Não existe paixão sem luta.

“[…] É outro amor que estremece Don Juan, e esse é libertador. Ele traz consigo todos os rostos do mundo e o seu frêmito vem de ele se saber mortal. Don Juan escolheu não ser nada…”

− Hoje rejeito essa opção por ser nada e também relativizo a liberdade que sempre busquei. Para chegar onde estou, lá atrás elegi minhas referências, meus modelos de homens livres. Mas hoje convivo com esses mesmos homens que  outrora foram meus ídolos e sei de suas vidas particulares. O resultado dessa convivência me fez perceber que eles, hoje, são livres de verdade somente para morrerem na solidão.

− Que bom que você chegou a essa conclusão antes dos 30. Por mais que você tenha vivido muitas coisas cedo demais e conquistado posições importantes tão jovem, ainda tem outros 30 anos pela frente – e talvez esse seja o grande ensinamento desses mestres na sua vida, pois por causa deles, e por observar suas trajetórias que agora te parecem equivocadas, você não lamentará o curso das coisas somente depois dos 70.

− Hoje acho que Nietzsche foi um erro.

− Em que sentido?

− Ele mapeou muito bem tudo isso aqui, entendeu todas as relações e como os fracos são esmagados. Ele achava que, por ter compreendido, dançava acima das tramas humanas, mas ele se enganou.

− Sim, se enganou. Ele não suportou tudo isso que tão bem compreendeu. Eu digo que jamais quereria que minha lucidez me levasse à loucura. Lendo “Assim falou Zaratustra”, um trecho me foi particularmente perturbador. Me impressionou a lucidez como ele apontava isso que você chama de fraquezas humanas, mas pensei que isso não basta – ou basta, sim, para enlouquecer. Depois de ler, e concordar com ele, minha pergunta era: “mas e daí?”. Que me importa catalogar fraquezas, desvios e corrupções humanas e depois, como recompensa por tamanha perspicácia, passar 10 anos vegetando? Curiosamente, só me senti curada desse sentimento perturbador depois da leitura do texto de um religioso.

− Ah, mas nesse sentido o cristianismo tem um papel fundamental. É uma religião em que o lugar de destaque é de um fraco e nele essa humanidade inteira de fracos pode se redimir.

− O religioso em questão não era um cristão, mas um judeu. Ah, não! Por favor, não abra outra garrafa de vinho. Estou com muito sono e, aliás, não quero mais voltar pra casa. Podemos dormir abraçados que nem daquela vez?

− Claro. Amanhã te faço um café que nem daquela vez.

− Só espero que não seja ralo que nem daquela vez…

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28 dias de café – parte 6: “Da leveza de ter nada mais que asas”

Os sete meses de 2006 que antecederam a viagem de agosto à Europa eu passara digerindo um amor contrariado, tentando administrar medos e incertezas causados pela instabilidade na vida profissional, negociando com meu pai por tudo devido à minha absoluta falta de grana (a viagem foi bancada por ele, como presente de formatura) e vivendo um profundo isolamento.

Recém-formada, eu vi desandar um por um todos os planos profissionais que traçara para aquele ano e se não me angustiei mais foi porque as tantas portas fechadas serviram para reafirmar a minha decisão de partir. Interpretei-as como um sinal.

Com a viagem já marcada, acabei recebendo a proposta de um amigo para trabalhar no projeto de um documentário que seria gravado em Portugal, no Porto. Dediquei-me então à pesquisa e à pré-produção e, pouco mais de um mês antes de embarcar, estava bastante feliz com o trabalho, que realizava de casa – o que, portanto, não alterou meu isolamento, nem amenizou as cobranças do meu pai, já que eu só receberia pelo projeto depois de realizadas as gravações.

Apesar do período difícil, tempos depois eu lembraria com carinho daqueles dias. O isolamento e a falta de grana acabaram propiciando muitos momentos de meditação; as crises e desesperos em relação ao futuro aos poucos deram lugar a uma paz quase irresponsável. Ouvia meus amigos reclamarem de seus relacionamentos, do emprego, do salário, do chefe, e eu, por fim, ria por dentro, pensando que a privação de algumas conquistas pelo menos me poupava de muitos aborrecimentos.

Esse verdadeiro exercício de despojamento pré-viagem resultou numa entrega sincera: meu coração estava aberto para os lugares e pessoas que cruzariam o meu caminho. Vários amigos chegaram a acreditar que eu não voltaria, diziam que, no Brasil, não havia o que me prendesse, que eu nada tinha a perder – e , sensível como estava, cheguei e me sentir um pouco magoada com esses comentários, por considerá-los eufemismos para a minha condição de mulher sozinha vivendo um marasmo profissional.

Em todo caso, parti com leveza. No dia da viagem, no aeroporto Santos Dummond, durante a espera do meu vôo para São Paulo, registrei no meu caderninho:

Aqui começa minha viagem, apenas parte da travessia de sempre. Todos se preocupam porque posso não voltar. Eu simplesmente fico feliz por esta que agora se vai: uma mulher encontrada e, por isso mesmo, apta a se perder, se misturar com a alma das pessoas, coisas e lugares…”