homônimas

vivo um susto, vem a dúvida: que foi mesmo que mudou?

no espelho minhas rugas avançam a passos lentos. e eu mal aproveito essa oportuna falta de pressa.
as celulites estagnaram, ou talvez minha miopia não tenha parado de avançar. e eu ainda não aprendi a celebrar a parceria perfeita entre meu tecido adiposo e minhas retinas com defeito.

faço chamada pras marcas do meu corpo e confirmo, elas continuam lá, obedientes e aplicadas:

– Manchinha Da Virilha!, chamo.

– presente!, ela responde.

– Pinta Nas Costas?

– tô aqui!

– Dores?

silêncio até que vem a resposta em coro:

– somos várias. é melhor chamar pelo sobrenome.

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De susto, de bala ou de culpa

No fim da aula, a professora pede para eu esperar. É perigoso andar pela rua às dez da noite. Vamos para o mesmo lado, uma acompanha a outra, se é que isso serve de alguma coisa. Não deve mesmo servir. Não serve. Mas deixa pra lá. Quase chegando no ponto de ônibus, barulho de tiros. Muitos tiros. Continuamos andando, então o barulho ficou muito próximo. A minha única reação foi me esconder atrás da professora. Isso mesmo. Eu quis evitar uma bala perdida lançando mão de um escudo humano: a minha professora de Ética. Cena patética, eu fugindo dos tiros. Rimei ética com patética, sem querer. Sem querer, mas rimei. Minha ética deve ser patética. É, já sei. Por que uma bala daquela não me acertou? Eu já morri de vergonha. Imagina se uma bala me acerta? Coitada da professora, que seria obrigada a lamentar.

Carrego uma culpa. Certa vez um professor foi assaltado porque parou para me dar carona. Levaram carro importado, relógio caríssimo e uma boa grana. De mim, nada. Três alunas perderam suas bolsas. Comigo nada. Eu não perdi nada. Ganhei a certeza de que professor que anda comigo tem que, antes, andar com galho de arruda. E pé de coelho. E água benta. E figa. Duma figa.

A culpa duma figa já não basta. Agora a professora-escudo. Eu nunca basto. Desconcertada, tentei concertar. Teve jeito? Teve jeito. Só de piorar. Fiz que não ouvi nada, o medo passou. Ficou a culpa. Se antes me protegi, fui tentar proteger: “Espero ônibus com você”. Mudei de assunto, violência não é nada. Nada? Que nada. Já morri, de mosca morta. E nem precisei ser baleada.

Acho que mereço ser reprovada em Ética. Se eu fosse a professora, era o que eu faria. Faria? Nada. Hoje eu perdôo de graça. Não que eu costume cobrar para perdoar. Eu sempre cobro de graça: posturas que não tive. Mas hoje a misericórdia está em promoção. Porque eu nem consigo parar de rir. De rir por não existir, porque acho mesmo que morri. Morri de vergonha e, agora, morro de rir. Vocês não viram o que eu me vi.