Ao urubu que pousou em minha janela

Há três dias um urubu pousou no parapeito da minha janela do trabalho. A janela estava fechada, eu não corria o risco de me ver, de repente, dividindo a sala com ele. Ainda assim, foi assustador observá-lo do outro lado do vidro, sobretudo no momento em que ele, brincando com a própria imagem refletida (e assim demonstrando que o universal mito de Narciso é extensivo ao mundo animal), abriu as asas e olhou fixamente para os próprios olhos, sem saber que eles encontravam os meus do outro lado. Ou talvez soubesse.Fiquei me perguntando se aquilo era um sinal. Concreta e racionalmente, não era. Mas insisti em acreditar que sim, que havia ali uma mensagem a ser interpretada. Inicialmente, só consegui pensar em uma única possibilidade: mau agouro. Não me condeno por essa visão negativa pois, se de fato somos o que comemos, eu tinha diante de mim um amontoado de carniça que veio voando se instalar ao lado da minha mesa de trabalho.

Como o bicho não dava sinais de que sairia dali tão cedo, confortável que estava no meu parapeito, e eu não podia simplesmente abandonar o posto, tentei pensar em algo que me acalmasse. Talvez o visitante estivesse em missão de paz, apesar de enlutado. De repente, entendi claramente o objetivo principal de sua presença: me fazer entender que tudo que devora coisas mortas, podres e carcomidas contribui de uma maneira muito contundente para a beleza da vida.

A constatação me fez sorrir. O urubu, que nada deixava escapar, resolveu me testar abrindo novamente suas enormes asas negras. Desta vez, não me apavorei. Entendi o gesto como um generoso convite para voar em suas asas. No entanto, para tornar a viagem possível, eu deveria abandonar meu excesso de peso e ele, se tornar mais forte. Assim, fizemos um pacto: eu lançaria ao meu amigo faminto o que de morto e podre houvesse em mim para que ele, gentilmente, a tudo devorasse.

O urubu então se empanturrou com um cardápio variado:  carnicentas mágoas, mal-cheirosos medos, putrefatas dores, podres preconceitos, estragados egoísmos e tantos ressentimentos em decomposição. Quanto mais eu alimentava o urubu, mais forte ele ficava e eu, mais leve. Assim, voávamos mais alto. Por fim, quando não restava em mim o que servisse de alimento para meu amigo, com receio de que perdêssemos altitude, comecei a desejar que outras mortes sustentassem nosso voo.

Então, desejei a morte de tudo que mata o sonho, entristece a existência, envenena a liberdade do espírito e impede o voo do pensamento. Roguei pela morte de tudo que impede a paz, o conhecimento, a arte, a beleza, a esperança, a fé na vida. Morte de tudo que destrói o afeto, morte da falta de cuidado e de respeito às diferenças, do que nos afasta da percepção da face divina do Outro. Desejei também a morte de tudo que nos desvia de nossa plenitude, do que nos faz embrenhar pelos descaminhos do conformismo e da mesmice. Morte!, gritei, aos sistemas injustos que matam pela falta de pão, de beleza e de oportunidade; que castigam a natureza e ofendem a dignidade humana.

Até que me dei conta de que não tivera tempo para despedidas e luto, nem me preparara para o mistério que agora se anunciava. O que havia restado de mim e do mundo que eu conheci um dia se, desde sempre, um e outro éramos feitos também daquilo que foi devorado pelo urubu? De repente, o desconhecido me pareceu infinitamente mais insuportável que a podridão, pois, de certa forma, havia me acostumado a ela.

E foi então que o sábio urubu, com jeito de profeta, me aconselhou: “filha, viva o novo e deixe que das coisas mortas cuidem os urubus”.

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