“Não pare, pois isso é uma forma de ajudar o mundo”

Hoje o Facebook me mandou um alerta para que eu autorizasse uma mensagem inbox de um evento acadêmico do qual vou participar. Pronto, foi a isca para que eu caísse na toca do coelho da Alice. Nesse limbo para onde vão mensagens daqueles que não constam na sua rede de contatos, havia obviamente várias que nunca tinha lido. Algumas eram de pessoas que me procuraram lá depois de me lerem aqui no Digerindo. Outras, de quem lera uma matéria da Você/S.A., sobre gente que deu um rumo novo na vida, e eu era uma das personagens por conta da minha decisão de pedir demissão e viajar pelo mundo em 2011.

Dentre as mensagens, destaco quatro, que tomo a liberdade de reproduzir aqui (preservando, obviamente, a identidade dos remetentes):

Em 20/02/2012:
“Olá Gisele, tudo bem?
Sou assinante da VOCE S/A e vi uma matéria sobre sua coragem de ‘largar mão’ de tudo e partir para uma aventura. Achei mto legal …
Me identifico com pessoas assim que adoram viajar, aventuras e queria apenas compartilhar contigo.Parabéns e sucesso ! Bjs”

Em 11/10/2013:
“Oi Gisele, Bom Dia!!
Tudo bem?/ Estava lendo seu artigo publicado no site Você S/A. Muito bacana sua história… Estive no Rio recentemente, me encantei por este lugar! Tenho muita vontade de largar tudo por aqui e sair do interior… estou planejando fazer isso em breve, e o Rio é um dos lugares que pretendo passar uma temporada, isso é ‘pessoal’ preciso sair… respirar novos ares, me sinto limitada!! hahhah… Histórias como a sua, entre outras… me inspiram. Vou ficando por aqui, abraços.”

03/01/2014
“Querida Gisele,
Li sua crônica 
‘Ao urubu que pousou em minha janela’e resolvi te escrever para agradecê-la, pois ontem um urubu pousou no parapeito da sacado de meu apartamento e graças a sua crônica, consegui acalmar um de meus familiares que entrou em pânico ao se deparar com o urubu. Parabéns pelo texto e minha gratidão pelas lindas palavras que nos fizeram repensar em muitas questões. Um abraço”

17/12/2015
“Gi! Vi seu blog, e ali encontrei a unica solução pros meus problemas Gostaria de dar uma desabafada, coisa que nunca contei pra ninguém Quem sabe você consegue me livrar da depressão? Espero que me aceite! Muito obrigado!”

Fiz questão de responder a esses quatro, por mais bizarro que possa parecer, mesmo depois de tanto tempo, tantos anos (para alguns) sem resposta. E olha que coisa, a pessoa da terceira mensagem me respondeu imediatamente, deste jeitinho:

“Sim!! não pare [de escrever], pois isso é uma forma de ajudar o mundo! Aliás, você só ter encontrado as mensagens há pouco tempo foi oportuno, pois hoje estava meio desanimada e a história do urubu me fez repensar em algumas questões. Além disso, será motivo de conversa com amigos hoje!! abs!!”.

Me despedi desejando a ela uma boa conversa com os amigos e prometendo que ia pensar com carinho sobre essa coisa de escrever como uma forma de ajudar o mundo.

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Sobre o Mistério da Santíssima Alteridade

Uma coisa me incomoda em relatos de viagem: a facilidade que muitos demonstram ao descrever lugares, culturas, comportamentos ou mesmo paisagens e comidas estrangeiras. Talvez, no fundo, uma inveja inconfessável defina essa estranheza porque desde a minha primeira vivência fora do Brasil, aos 18 anos, até hoje, aos 34, nunca me abandonou o sentimento de espanto na relação com o Outro. Impressionante como eu, teoricamente íntima das palavras, me vejo outra vez criança, que pasma e silencia diante do que posso chamar de Mistério da Santíssima Alteridade.

Sempre convivi com o desconforto em meio às tentativas de experimentar e descrever algo muito diferente, embora me esforce para que isso pareça natural. Lembro de uma ligação de Skype para a Juliette, ela em Munique e eu aos prantos em Maputo, por achar que tinha quase uma obrigação de escrever e compartilhar minhas experiências (isso no meu oitavo mês de andança pelo mundo, na viagem mais longa que fiz até o momento). No entanto, receava aprisionar o Outro nos meus clichês, ainda que com o salvo-conduto do olhar estrangeiro, e me sentia absolutamente incapaz de disseminar impressões superficiais, apesar da minha licença poética de viajante-desbravadora-corajosa — e provavelmente por não conseguir me ver como essa personagem descolada. A Juliette, a pessoa mais nômade que conheço na vida, que já morou em quase dez países, nunca no seu próprio, justamente ela me entendeu perfeitamente.

Hoje, ainda incapaz de me lançar inadvertidamente no terreno das afirmações e certezas absolutas, me apaziguei em relação às minhas dúvidas e me consolo por saber que neste mundo de informação, de discursos inflamados e de crianças que nascem sabendo, existe ainda muito espaço para questionamentos — felizmente, porque os meus, com o passar dos anos, mais se amontoam do que se esclarecem e é preciso encontrar um lugar para eles. Talvez só agora esteja descobrindo que a grande sacada seja precisamente fazer perguntas — e, claro, o que sempre soube: ouvir pessoas. Porque não pode existir aventura maior que tentar desvendar o Outro (ainda que esse movimento resulte numa descompreensão ainda mais profunda) e, nesse processo, vislumbrar o Mistério que nos constitui.

 

A teoria da espiral*

Relatório conclusivo de novembro de 2006:

…concluímos, entre outras coisas, que o problema da lógica do casal é que as duas pessoas congelam as próprias existências com medo de desencontro. A mudança do outro é sempre ameaça, então, por insegurança, aprisiona-se quem supostamente ama-se, pra que outras existências possíveis não representem afastamento, separação.

O problema é que a vida é feita desses desencontros e reencontros e, se deixar fluir, eles sempre acontecem. O exemplo que usamos foi o da espiral do DNA, que se enrosca e desenrosca, têm pontos de contato eventuais entre as sequências de código genético, mas elas sempre mudam, se recombinam, e se reencontram lá na frente, alteradas, com codificação já completamente outra, mas sempre se reencontrando, sempre fluindo.


* Teoria formulada em uma noite de fins de agosto de 2006, em Amsterdam, sob condições especiais de temperatura e pressão.