Só queria mostrar meu olhar

Ontem, o professor de yoga reservou alguns minutos no final da aula para um papo-reto. Falou novamente sobre a linhagem de gurus que seguia, reforçou que era apenas um instrumento dos caras e enfatizou a importância de se acreditar naquilo tudo, de se ter fé e entender que yoga não podia se resumir a um mero exercício físico.

A medida em que ele ia falando, me veio um filminho, e me dei conta das inúmeras vezes em que me vi em situações de estranhamento e estrangeirismo, e pensei que, nesses momentos, sempre me senti muito em paz por ter me transformado em alguém capaz de respeitar diferentes crenças e manifestações de fé . E, na noite de ontem, mais uma vez reafirmei essa minha capacidade adquirida de amar meu próximo mesmo quando ele é tão outro. Mas, junto com essa constatação boa, me veio um nó na garganta. De repente, me dei conta de que todo esse exercício de compreensão teve lá seus efeitos colaterais. Fazendo uma analogia, é como se o desejo de conhecer terras distantes tivesse apagado a minha noção de lar. Ou ainda, como se eu, mais uma vez, repetisse o deslize de tantos amantes: na relação com o outro, me perdi de mim.

Deu vontade de confessar para o professor que eu sequer sentia necessidade de acreditar em certas coisas. Que nunca me preocupei com o que há além da vida ou em outros mundos, muito provavelmente porque este em que me encontro já me rende doses satisfatórias de mortes e ressurreições. Sendo bem honesta, nunca me emocionei de verdade com a figura dos gurus que já não estão entre nós – embora outros, vivos e com vídeos no Youtube, já tenham me arrancado lágrimas.

Enquanto o professor falava, me veio a recordação do último encontro com o meu pai, quando ele me presenteou com uma imagem de Santa Clara, comprada em Assis. Ao receber o mimo, cheguei a comentar da minha falta de intimidade com santos e santas, mas confessei que andava mesmo à procura de quem me fizesse exercitar minha devoção. Meu pai, intrigado, como se me estranhasse, perguntou: “minha filha, como é que você fala com Deus?”

Fiquei tentando me dar uma resposta a essa pergunta. Entendi que algo havia mudado (não sei precisar desde quando), talvez porque no afã de conciliar discursos, enaltecer teorias e compartilhar filosofias, desaprendi a falar com o coração e a assumir minhas paixões.

Me despedi da aula e do professor sem dizer nada, mas, já no caminho pra casa, me impus o exercício de descobrir onde é que, afinal, eu fui parar.

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Diálogos II

−  “A beleza só existe quando alguém a admira”, um amigo meu sempre dizia. Houve um momento em que me percebia como uma bela mulher vivendo seu auge. Por me sentir tão plena (não ria de mim!), comecei a pensar que não fazia o menor sentido eu me envolver com alguém que não me enxergasse, ou que me desejasse sem saber me ter. Até que um dia olhei no espelho de sempre e só o que vi foi uma mulher envelhecida e profundamente só.

− Você não está sozinha. Além do mais, é uma mulher linda, deixe de besteira. Sempre foi, mas hoje tem esse ar de maturidade que lhe cai tão bem.

− Confesso que não me assusta envelhecer. Há beleza em todas as fases e as mulheres que admiro são precisamente as que vivem bem cada uma dessas etapas, que assumem suas rugas e cabelos brancos.

− Já eu tenho medo da decadência do corpo.

− Ah, meus receios não são estéticos, mas certamente sinto medo do corpo pifar, de enferrujar, de não conseguir amarrar o cadarço do sapato. Engraçado que pensei nisto quando comecei a fazer yoga: se me cuidar desde agora, que venham as rugas e os cabelos brancos, pelo menos não terei um corpo limitado. Deve ser libertador amarrar o cadarço do sapato aos 80 anos.

− Nunca fiz yoga, não posso falar dos benefícios, mas não me parece tão libertador viver me contorcendo e de cabeça pra baixo só para ganhar 10 anos.

− 10 anos? Como assim?

− Ora, qualquer pessoa, mesmo sem ter feito yoga a vida inteira, consegue amarrar o cadarço do sapato aos 70.

− Nunca havia pensado nisso…