Enjoy the silence

“Educar-se para o silêncio equivale a educar-se para o mistério. Há um silêncio de urgência, como quando dizem tranquilize-se, não fique nervoso, respire fundo; esse é um silêncio ingênuo, quase de brincadeira. Mas existe um silêncio substancial, de luxo, é o que nos permite regressar a casa. Fixemo-nos, sobretudo nesse último, silêncio interior, silêncio de qualidade que aparece como espaço não manipulado onde tudo volta a ser originário. O espaço no qual aparece o risco mais belo e temível, sentir-se diante do desconhecido, ficar desestruturado, pobre, sem as referências habituais. Vejamos seu processo: primeiro, silêncios menores.

Existem silêncios menores, são como exercícios de aquecimento antes da consecução do silêncio que buscamos; muitos não passam daqui, provocam uma espécie de silêncio pausa, evocam o descansar um pouco, a pausa interrompe a continuidade compulsiva com a qual vivemos e proporciona a oportunidade de uma mudança de direção. Há pausas no espaço: um lugar no bosque, um rochedo no mar, a cela de um mosteiro solitário. Existem pausas no tempo: quem procura viver num dado momento sem pressas ou urgências; esses silêncios menores no espaço ou no tempo já são de algum modo espaços desprogramados. Quem deseja adentrar na profundidade do silêncio a que falávamos antes, tem de embrenhar-se frequentemente nestes como quem treina seus olhos para ver a escuridão.

Esses silêncios menores já costumam começar a produzir sensações estranhas. É porque não estamos habituados à desprogramação. Ao olhar uma árvore sem interpretá-la, a beber a água sem julgá-la, não estamos acostumados a alguma coisa sem mais, simplesmente.

Não estamos acostumados às pausas e a esses pequenos preâmbulos e é tão importante deter-se sem fazer nada, mas muito atentos ao que ocorre quando nada ocorre.

[...]

O silêncio contemplativo é impensável, quando se é incapaz desses silêncios menores, carregados dessas contemplações menores, como olhar uma folha caída de uma árvore, uma formiga que trabalha, a longínqua linha de um caminho, o correr de um regato. Todos esses silêncios menores são parte de um necessário caminho para chegar um dia a ouvir a solidão sonora, a música silenciosa que vibra pura e forte dentro de cada um”…

Nicolas Cabalero, citado por Gilberto Safra em “Desvelando a memória do humano”.

Nostalgia

“E nossa história não estará pelo avesso
Assim, sem final feliz.
Teremos coisas bonitas pra contar.

E até lá, vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não olhe pra trás
Apenas começamos.
O mundo começa agora
Apenas começamos…”

Back to the old house

No domingo retrasado regressei de uma viagem de 10 dias a trabalho. Felicidade danada entrar no meu ap. Arrumei com gosto a casa, molhei as plantas e a máquina de lavar funcionou a todo vapor. Ainda não havia me dado por satisfeita, deixei coisa pra fazer no dia seguinte, uma segunda-feira que chegou com a notícia, logo pela manhã, de que eu precisaria entregar o apartamento.

Não, não houve quebra de contrato. Eu estava sublocando e, 8 meses atrás, quando surgiu essa oportunidade, me veio quase como milagre: sem burocracias, sem fiador, ap mobiliado. Vem fácil, vai fácil. Não terei tempo de procurar outra coisa agora, então, com a mesma rapidez que mudei, desmudo. Outra vez fazendo a casa do pai de pouso, até a próxima vez. Achei cansativo pensar nesses meus movimentos de Sísifo, esse eterno retorno, mas depois pensei que o ponto de partida não será o mesmo. Nunca é.

Engraçado que, no momento, só consigo pensar em viajar. Parece que, pra mim, tem valido a lógica “ou casa, ou asa”. Quando o casulo é bom, me enfurno nele. Quando estou mal de casulo, acabo virando borboleta. Não deve ser de todo ruim. Ou estou mesmo muito Polyana…

Sobre laços e passos

A verdade é que transitaria pelo mundo, vivendo de epifania em epifania, e seria plenamente feliz assim. Pelo que me lembro, desde sempre foram laços e não passos que me fizeram sofrer.

Presente

De repente não soube o que fazer com minhas palavras gastas e cansadas e é por isso que hoje te oferto o meu silêncio.  Silêncio que, vazio de ruídos, se faz pleno de sentidos. Silêncio que, ao prescindir de rótulos, se reveste de experimentações e descobertas. Silêncio para ser preenchido com a trilha sonora de que somos feitos. Silêncio que permite o canto e o uivar do vento que varre caminhos e espalha sementes de sorrisos e olhares nunca vãos.

Malandragem

Hoje resolvi comprar minha mesa nova para o computador. A entrega em casa com montagem representava um acréscimo de apenas 11 reais, porém a encomenda chegaria somente no dia 8. Como não aguentava mais não ter onde escrever, retirei hoje mesmo da loja. Carreguei a caixa de 12 quilos debaixo do braço pelo shopping pensando que a falta de carro ou de vassalos não me impediria de resolver minha vida. Paguei 13 reais no taxi e pronto.

Mas, chegando em casa, já disposta a começar a montagem, li no manual que o trabalhinho precisaria ser realizado por duas pessoas. Pensei na hora em ligar pro zelador, que quebra todos os meus galhos, mas confesso que me bateu um acanhamento ao imaginar a cara dele de quem pergunta “pra que serve aquele incompetente que anda frequentando o seu ap?”.

Resolvi, então, pedir ajuda pro meu irmão, mas ele só podia no sábado. Nisso, na minha face de super-mulher-independente-que-não-precisa-de-carro-nem-de-ninguém-para-resolver-a-vida começou a brotar, quase imperceptível, um biquinho de contrariedade.

Como queria mesmo uma desculpa para falar com o super eficiente que anda frequentando meu ap, mandei um sms pra ele: “Estou precisando tanto de um engenheiro…”. A resposta do rapaz não tardou: “E eu de uma morena linda, leitora de contos, para tomar vinho e ver a lua cheia”. Antes que eu voltasse das nuvens para responder qualquer coisa, outra mensagem dele chegou: “Mas pra que vc precisa de um engenheiro?”. E eu respondi o óbvio: “Como assim pra q? Pra contar contos, tomar vinho e ver a lua, ora bolas”.

em desconstrução

acabo de rasgar 128 páginas do diário que escrevo desde dezembro de 2005. sobraram poucas estórias ali, mas ainda restam muitas folhas em branco a serem preenchidas. gostaria de ter ateado fogo em tudo, mas a vida de prédio não permite certos rituais mágicos.

o hábito de me desvencilhar de entulhos é antigo, só que ando me aprimorando, felizmente.

Do que se pode dizer

Achava graça: você me dizia que eu era um desperdício de gente, que tinha uma mania de flanar desgarrada pela vida e que isso, em algum momento, me consumiria. Uma vez cheguei a tentar te esclarecer acerca dos vícios de quem nasce com umas asas meio tortas e um abismo latejando nas veias, mas você me interrompeu para que eu não prosseguisse com minha linguagem cifrada, me aconselhou a desistir de querer salvar o mundo e me esconjurou por crer que meu mal era sentir culpa por existir assim: tão espaçosa, invadindo tudo, derrubando as coisas e fazendo barulho. Eu te ouvia achando graça, pensando na imagem da Alice agigantada saindo pelo teto e pelas janelas de uma daquelas casas do País das Maravilhas.

Você nunca acreditava nos meus mistérios fundamentais, meu mundo era outro do teu e ainda hoje me pergunto em que ponto dessa estrada feliz e errada resolvemos nos dar as mãos, mas sei que funcionou um dia e agora entendi que vai funcionar pra sempre, só que diferente. E achei graça de tudo mais uma vez.

simplesmente

Não é regra, mas costuma me ser mais fácil transformar em palavras as experiências de tempos já vividos.

Quanto ao hoje, eu simplesmente sinto.

Tem coisa que é desde sempre. E ponto.